A Alma do Universo Me Chamou - Memórias de Amenof Sinuhe
Lá estava eu, pensando nas coisas que a vida ainda poderia me oferecer. E o que eu poderia lhe dar em troca? Nada parece fazer sentido. Tudo o que vejo são sombras e ventos. Tudo o que toco me parece sólido. Mas sei que a realidade habita bem distante daquilo que meus sentidos alcançam.
Quero a paz do silêncio, sem viver no esquecimento. O que acalma minha alma? O que é, afinal, minha alma? O que são os meus sonhos? De que são feitos os meus pensamentos?
Ando pelas montanhas e observo o nascer e o pôr do Sol. O que realmente aconteceu? Apenas mais um dia que veio e se foi? Tudo se resume a isso? Se me alimento, sinto um prazer momentâneo, mas o que foi, de fato, essa experiência? Em que consistiu aquele instante? Se me deito e durmo, onde repousa minha consciência? Como posso saber que despertei sendo realmente o mesmo de ontem? Se sigo por um caminho, o que espero encontrar ao final dele?
Sento-me à beira do rio e deixo meus pés repousarem sobre a água fresca. Para onde correm essas águas? Esse ciclo terá algum dia um fim? E esta pedra sob meus pés... sempre esteve aqui? Quantas histórias testemunhou em silêncio? Quantas vidas passaram diante dela enquanto permanecia imóvel? O que ainda verá? Teria ela consciência de sua própria ausência de consciência?
Às vezes sinto que sou apenas uma brisa atravessando o espaço vazio da existência. Outras vezes, sinto que minha vida é como um som distante, tão fraco que jamais foi percebido pelo universo.
O que é a vida? O que é a morte?
Olhamos para as coisas e passamos a desejá-las. Guardamos coisas. Compramos coisas. Acumulamos coisas. Aos poucos, tornamo-nos também coisas, perdidas dentro de uma imensa coisa que viaja pelo espaço, envolvida por algo ainda maior, cuja dimensão sequer conseguimos imaginar.
Talvez nada disso seja verdadeiro.
Talvez a vida seja muito mais do que tudo isso.
Ou talvez seja infinitamente menos.
E eu apenas ainda não tenha descoberto.
Descobrirei algum dia?
(Este breve texto faz parte do livro "Últimas Memórias" de Alexandre Moraes do Nascimento)

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